Amor de mãe

11/05/2014 19:00

 

Jornalista Vanessa Pedro

Obori Cambona da Tenda Espírita Santo Expedito

Filha carnal de Mãe Nilva de Oxalá

 

Nada como a vida vista em perspectiva. O TA me pediu um texto sobre as mães nos terreiros de Almas e Angola para esta edição. E eu me ponho a escrever a partir de um lugar geográfico pra lá de distante do terreiro e da minha mãe carnal. São mais de seis meses longe das sessões e longe dela. Este dia das mães passo longe do Brasil, aqui em Nova York, e minha única companhia familiar é justamente a pessoa que me fez comemorar este dia não mais apenas como filha mas também como mãe.

Como eu disse, nada como a vida em perspectiva e certa distância para acomodar os pensamentos e calmamente nos colocar a escrever sobre um tema que traz tamanha força, entrega e delicadeza. As mães nos terreiros. Pra começar a história, parto do princípio de que as religiões afro-brasileiras de uma forma geral são lugares do feminino. E não se trata de uma exclusão do masculino, em absoluto. Mas é um lugar onde as mulheres têm não apenas igualdade como preponderância. Onde não há barreiras para que elas cheguem a qualquer grau ou cargo, mas também uma religião que tem como base das suas relações a família. E aí sempre entrou com energia incrível a força das mães. Até os homens que conduzem ou participam dos terreiros têm que se transformar um pouco em mães, ou precisam tornar-se pais diferentes, que acolhem, cuidam, amparam, desenvolvem, conduzem dentro da família os seus filhos.

E como não apenas os terreiros são famílias, mas as famílias de sangue convivem nos terreiros, há muitos casos como o meu, de ter a sua mãe carnal convivendo dentro da sua vida espiritual. Ainda que interditadas de assumir o papel de sua mãe-de-santo, elas permanecem sendo o pilar que acompanha seus filhos em mais uma das tantas trajetórias assumidas por eles na vida. De alguma forma elas têm que ceder sua autoridade de mães a quem conduzirá a vida espiritual dos filhos, o que não deve ser tarefa fácil. Esta parte é algo que sei que terei que fazer também em relação ao meu, mas não sei se terei tanto desprendimento assim. Ao mesmo tempo estão sempre atentas aos caminhos seguidos, por filhos e zeladores ou outras zeladoras. Desprendimento é uma coisa, por em risco a vida espiritual do seu filho é outra. Então, a estas corujas, penso que lhes acomete um misto de deixar ir a outras mãos sagradas ao mesmo tempo que acompanham tudo o que se passa ao longo da vida espiritual do seu rebento. Até porque muitas delas estão vendo se formar em seus filhos a continuidade de suas próprias Casas de santo. E assim, gerações e gerações vão se sucedendo e fazendo suas histórias dentro dos terreiros. A maioria sucedendo suas mães. Todas construindo também a história das Almas e Angola.

Por isso, mais uma vez, nada como a harmonia para que as autoridades sejam respeitadas, tanto as zeladorias quanto as mães carnais. Só ganhamos nós, os filhos de muitas mães, que temos a dádiva ser conduzidos e zelados pela família de casa e a família da Casa. E mesmo aqueles que não têm suas mães dentro dos terreiros sempre encontram o acolhimento de uma irmã de santo mais velha, de uma das tantas senhoras de força e fé que são a base e o esteio de muitas Casas de santo ou de cambonas, que muitas vezes com o passar do tempo tornam-se um pouco mães dos que vêm após.

E por falar em perspectiva e distância, e sobre um lugar de destaque entre as mães de Almas e Angola, esta noite invadiu meus sonhos aquela que primeiro lembramos quando hoje falamos em mãe-de-santo: Mãe Ilka. Fiz um livro sobre ela mas mãe Ilka nunca havia me invadido um sonho antes. Na primeira noite depois que recebi o convite para falar das mães aqui no TA sonhei com ela. Com seu jeito altivo e quase juvenil me deu um abraço. Coisa boa de se sonhar e prova de que as pessoas de luz própria e de grande importante estão acima do tempo e da distância. Lá se vão quase 20 anos após sua partida, mas a Flor de Almas e Angola e exemplo de todas as mães, com todas as suas controvérsias como só as mães sabem ter e ser, se faz presente como evidência de que a Almas e Angola é um reino das mulheres e das mães.